O Dilema
Você tem uma dívida e, ao mesmo tempo, algum dinheiro disponível. Talvez um décimo terceiro, uma venda ou um bônus. A pergunta é simples: você usa esse dinheiro para quitar a dívida, ou investe e deixa a dívida do jeito que está?
O Mecanismo
A resposta não depende de opinião. Depende de uma comparação direta. A taxa de juros da sua dívida é maior ou menor que o rendimento líquido do seu investimento? (Rendimento líquido é o que sobra depois de impostos e taxas.)
Suponha que a dívida custa mais do que o investimento rende. Então, cada mês que você mantém os dois ao mesmo tempo, você perde dinheiro na diferença. É como tomar empréstimo a uma taxa alta para investir a uma taxa mais baixa.
Quitar a dívida primeiro, nesse caso, equivale a um investimento garantido. Esse "investimento" rende exatamente a taxa de juros que você deixa de pagar. E rende sem risco de mercado, porque é certeza, não expectativa. (O risco que sobra é outro: ficar sem esse dinheiro disponível se precisar dele de volta rápido. Veja a ressalva no final.)
O Exemplo
Cenário 1 — dívida no cartão de crédito (rotativo). A taxa é de aproximadamente 14,9% ao mês (já vimos isso no artigo sobre a fatura do cartão). Compare com o Tesouro Selic, que rende em torno de 1% a 1,1% ao mês bruto, e menos ainda depois de imposto. A diferença é gigantesca. Cada R$ 1.000 usados para quitar o rotativo "rendem" 14,9% no mês seguinte (os juros que você deixa de pagar). Nenhum investimento de baixo risco chega perto disso. Quitar ganha disparado.
Cenário 2 — financiamento de carro. A taxa é de aproximadamente 1,9% ao mês (vimos isso no artigo de consórcio vs. financiamento). Aqui a conta é mais próxima. O Tesouro Selic rende em torno de 1,1% ao mês bruto. Descontando o Imposto de Renda (20%, para resgates em menos de 1 ano), o líquido fica perto de 0,9% ao mês: 1,1% × (1 − 20%) ≈ 0,9%. Quitar o financiamento antecipado ainda "rende" mais (1,9% garantido contra 0,9% líquido), mas a vantagem é bem menor que no Cenário 1. Algumas pessoas preferem manter a reserva líquida em vez de quitar antecipado, mesmo que a conta pura aponte pra quitar.
Você pode repetir essa comparação com sua própria dívida. Pegue a taxa mensal dela e compare com o rendimento líquido do investimento que você usaria. Se a dívida for maior, quitar tende a ganhar.
O Que Fazer
Para dívidas caras (cartão rotativo, cheque especial), a conta quase nunca deixa dúvida. Quitar primeiro é a decisão certa, e quanto antes, melhor. Cada mês de atraso custa caro, como já vimos no artigo sobre juros compostos do rotativo.
Para dívidas mais baratas (financiamentos, parcelamentos com juro baixo), vale fazer a conta com os números reais do seu contrato antes de decidir. Considere também se quitar antecipado deixaria você sem nenhuma reserva de emergência. Ficar sem reserva para quitar uma dívida barata pode trocar um problema pequeno por um problema maior. O problema pequeno é pagar um pouco mais de juros. O problema maior é não ter dinheiro numa emergência e precisar recorrer a uma dívida bem mais cara, como o próprio rotativo.